Tem novidade? Tem, sim, senhor! ![]() OH! OH! OH! Strogonoff Petista Deitei a cabeça no travesseiro torcendo para ter um sonho deleitoso, puro, mimosinho, preferencialmente uma viagem no Orient Express. Pensei no trem partindo da Estação Santa Lucia, lá em Veneza, com destino a Viena e, posteriormente, Paris. Entretanto, deu cocô: acabei lembrando do Zé Dirceu, do Sarney, do presidente Lula fazendo seus medonhentos discursos de improviso, o que me fez sonhar com um absurdo strogonoff de carne de macaco, preparado por uma misteriosa quituteira do Mal chamada Mãe Martinha de Malaketo. Sei que foi castigo! * * * QUE COISA!!! Eu escrevo minhas bobagens aqui no recadário e há filas de pessoas a competir para ver quem veste primeiro as carapuças. Que coisa, não? "Ele falou de mim, o maldito Dennis!" / "Foi de mim que ele falou, aquele Dennis cretino e neurótico!" Ora, ora, não procurem pintos em ovos! Digo pêlos em ovos! Pêlos!!! Se as carapuças todas estão servindo tão confortavelmente, talvez signifique algo, não é mesmo? * * * Momento Psicológico Quando o esperto vovô Jung descreveu aqueles maravilhosos arquétipos, tais como o Infante Herói e o Sábio Ancião, esqueceu de mencionar a Caçadora de Pintinhos. Ela é um arquétipo importantíssimo. Importantíssimo! Eu acho que a Caçadora de Pintinhos tem o dom da ubiqüidade - igual a Santo Antonio. Duvidam? Basta passear por aí. * * * Voltando! * * * ![]()
![]() O Filho do Hipnotizador e outras histórias de estranhas pessoas - Dennis D. 208 páginas Contos Diversos Editora Resson Clique: Rede Saraiva Submarino Livraria Cultura
"Le Cage Aux Folles" Para a nobre senhora Baronesa de Cinemark
"Over the Rainbow" Harold Arlen
1 - You Neve Know 2 - Unforgettable 3 - Love is a Many Sprendored Thing 1 - Cole Porter 2 - Irving Gordon 3 - Alfred Newman
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São Paulo,
Terça-feira, Fevereiro 17, 2004
![]() Com a morte de meu pai, cabe-me agora providenciar o inevitável esvaziamento de uma casa inteira, a casa onde cresci e de onde saí aos 25 anos, a casa que meu avô materno fez erguer no final dos anos 40, a fim de que sua filha, quando viesse a se casar, morasse com o mesmo padrão de conforto a que fora acostumada e - aqui a presumida intenção principal - não ficasse muito longe dele.
Vovô colocou os melhores materiais naquela casa de Perdizes, dos tijolos às madeiras das escadas e balaústres - madeiras nobres que sempre exibiram a mesma altiva solidez e a mesma tonalidade rara, um castanho tendendo ao dourado. Nos tetos do andar de baixo, principalmente no da sala de jantar, os arabescos em relevo, os frisos com florões, as guirlandas e medalhões com rosas e camélias desabrochadas ainda lá estão, como sempre estiveram, sem uma trinca sequer. Coisa bem feita, coisa do tempo em que se privilegiava uma beleza de inspiração romântica. Atualmente, quase tudo o que se coloca para embelezar uma casa pode ser classificado como material cenográfico, que se deforma entre o verão e o inverno, racha, despenca, vira farinha. Explicou-me meu avô, quando eu ainda era um garotinho, que aqueles belos trabalhos no teto haviam sido executados por um especialista italiano, um artesão que viera para São Paulo pouco depois de estourar a Segunda Grande Guerra. O italiano chegara com a mulher, dois filhos pequenos e um álbum de fotografias. As imagens do álbum comprovavam a competência do homem, apresentando alguns dos magníficos trabalhos que ele executara em residências finas de toda a Europa. Vovô e vovó teriam observado atentamente as fotografias e escolhido cada um daqueles temas decorativos, que foram então reproduzidos com perfeição pelo italiano. O serviço não deve ter custado barato, mas foi feito com tal esmero, com tal qualidade, que poderia durar quase indefinidamente. Ah! quantas lembranças, velhas histórias, registros verbais. São montes de lembranças manifestando-se em sons abafados e em cores desmaiadas. Vejo-me, aos 7 anos, sentado à mesa, contemplando o teto da sala de jantar. Quase posso adivinhar o que pensava então: um bolo confeitado, sim, aquele teto se me afigurava como um grande bolo confeitado com ornatos de glacê de açúcar. Não posso continuar mantendo aquela casa. Nem teria cabimento eu deixar meu apartamento e voltar a morar nela. É grande demais para mim, exigiria manutenções constantes e dispendiosas. A casa, que já foi um lar, tornou-se apenas um imóvel, uma herança. Eu a venderei tão logo me seja possível, porque assim deve ser, e será, e acabou-se! Provavelmente o novo proprietário botará abaixo metade daquele imóvel, mandará raspar todos os florões, as guirlandas, os medalhões que enfeitam aqueles tetos; derrubará muitas paredes, modificará as escadas, arrancará portas e janelas. Que seja, já não me importo mais. A velha casa, aquela que existe entre minhas lembranças, não pode ser desfigurada. Ela permanecerá sempre comigo, para o bem e para o mal, entranhada. Estive pensando no que eu gostaria de retirar daquela casa física e conservar comigo. Alguns quadros, sim, objetos de certo valor artístico, um carrilhão vitoriano que soa lindamente, um lustre enorme, de oito braços, esculpido em madeira mil vezes mais dura que a minha cabeça (não me perguntem em que teto vou pendurar aquele polvo). Ah! eu gostaria (por razões sentimentais) de poder ficar com o sofá preferido de minha mãe, que é vitoriano e forrado com uma seda francesa de verdes profundos, sem um único defeito. Mas onde eu colocaria um sofá wildeano daqueles? Nem pensar! Nem pensar! O sofá será vendido e provavelmente o comprará, num antiquário qualquer, uma dessas emergentes vulgares, dessas deslumbradas imbecis que vivem falando em dinheiro, em grifes, mas nunca aprenderam que chic é algo que se tem e não algo que se é*. Dane-se o sofá vitoriano. Trá-lá-lá! Que vá receber outras bundas, e bem ordinárias, por certo. Uma imagem horrenda me chegou agora mesmo: a emergente vulgar deitada naquela seda e abrindo as pernas para um Wandercleyton - garoto de programa bem dotado. Bem, o que tenho eu com isso? Assim é a vida, não é? Dane-se! Dane-se também o par de poltronas Luis XVI, que já perdeu todos os dourados e precisaria de reparos urgentes de um tapeceiro. Confesso que senti certa raiva do meu pai, por ele ter acumulado tantas coisas, tantos objetos, coisas que agora se transformaram num fardo, muito mais do que num prêmio. Minha mãe sempre quis se livrar de muitas daquelas velharias, mas ele, meu pai, jamais permitiu. O sonho de minha mãe era morar em um apartamento pequeno, moderno e prático, bem longe daquele acervo de inutilidades. Meu pai, muito ao contrário, cultuava cada objeto, não se desfazia de nada, e a casa onde vivia era o altar festivo de suas vaidade tolas e chatas. Quantas ilusões o guiaram do berço ao túmulo! - é uma constatação, não uma pergunta. E como ele deve ter sofrido, sendo tão apegado a essas ilusões! Pouco antes de ele morrer, fez-me prometer que eu preservaria a casa, preservaria carinhosamente seus tesouros. Prometi, menti despudoradamente, disse as besteiras todas que ele queria e precisava ouvir. Agora farei o que deve ser feito: tudo muito diferente do que seria a vontade dele! Não sinto culpa, não. Sinto alívio. Chega de altares e atavios, chega de gobelins empoeirados. A cerimônia terminou. Fim da liturgia pagã! Quantos desencontros de sonhos, meu Deus! É impressionante! Eu, meu pai, minha mãe, cada qual olhando para uma direção diferente. Assim foi a nossa vida. Nunca pudemos caminhar de mãos dadas, nunca. Dane-se também a fantasia de que a felicidade será concedida apenas aos caminhantes que seguem bem juntinhos em direção a Oz! Jamais consegui agradar a meu pai, que eu saiba. Não lhe dei desgostos, mas tudo o que eu lhe oferecia de melhor, tudo, tudo, fosse o que fosse, sempre acabava parecendo errado ou insuficiente. Sinto-me como um homem que passou a vida inteira tentando acertar sua bolinha em uma determinada caçapa, mas nunca conseguiu. Tentou de todas as formas, por todos os meios e ângulos, mas a maldita caçapa não queria receber a bolinha. Não queria e demonstrava que nunca haveria de querer. Num determinado momento, depois de anos e anos de tentativas inúteis, o homem enche o saco, perde a paciência que lhe restava, apanha um machado de 7 quilos (desses machados de bombeiro) e resolve destruir a mesa, a caçapa e a bolinha. Manda tudo às favas, arrebenta, esmigalha, tritura e percebe que aquele jogo nunca fora o seu jogo; era apenas uma armadilha destinada a minar sua autoconfiança. No dia em que, pela última vez, eu fechar as portas daquela casa, seguirei em frente e não olharei para trás. Nunca mais pretendo passar por aquela rua. Se, num descuido qualquer, mesmo contra minha vontade, acontecer de eu passar por ali - fecharei os olhos e imaginarei estar em qualquer outra parte do mundo. Não verei a casa novamente, não verei o que quer que tenham construído em seu lugar. Tenho, hoje, plena convicção de que fui um menino que teve tudo e não teve nada. O que existe de bom em mim, agora como homem, se é que existe, eu mesmo criei, cultivei e desenvolvi apesar dos pesares, apesar da velha casa de Perdizes - onde tive poucos belos sonhos e muitos, muitos pesadelos. Game over! Abracadabra! New game! Qualquer novo jogo serve, desde que seja outro, desde que seja bem diferente daquele jogo que já perdi ou que se perdeu por si mesmo. ___ * (Fulana TEM um chic [chique], e não fulana É chic [chique]) (Não ando com paciência para revisões. Se acharem errros, passem por cima deles e sigam em frente, ok?) São Paulo,
Domingo, Fevereiro 15, 2004
(Conto ambientado no final do século XIX) ![]() Insidiosa é toda loucura, porquanto cresce aos poucos, bem aos pouquinhos, como as primeiras hastes de um espinheiro negro que, na primavera, quando ainda se mostram verdes, flexíveis, misturam-se ladinamente à inocência de um canteiro de goivos. Assim podem receber as regas diárias do jardineiro desatento, e podem aprofundar raízes, e endurecer seus espinhos venenosos, sem pressa alguma, à sombra das flores e ao sopro dos perfumes do jardim, onde se permitem sonhar com a carne macia do dedo da menina, com a perfuração, com o grito, com o cheiro de sangue, com as três lágrimas que tombarão e depois desaparecerão entre os grãos da terra.
A loucura de Otto Mitterhoffer cresceu exatamente como um espinheiro entre goivos risonhos. Ao transparecer, já não havia esperança de cura ou controle. O homem de antes se fora para alhures; em seu lugar surgira o demente caçador de bundas. Certa vez, a grande custo, Frau Sylvia Mitterhorffer conseguiu internar o irmão no Sanatório Odette de Crécy, localizado nas cercanias de Paris. Lá, um tal Dr. Schmols, diretor geral substituto (criatura repleta de bonomia), interessou-se pelo caso de Otto e, habilidoso como era, conquistou-lhe a confiança. Uma confiança relativa, a bem verdade, mas que acabou por trazer algumas luzes ao caso. Quando Otto completou o trigésimo dia de internação, deu-se a conversa, no banco mais procurado dos jardins do sanatório, junto à pequena estátua de Psiquê derramando azeite quente no ombro de Eros. - Diga-me, Herr Mitterhorffer, ainda se sente compelido a perseguir pessoas e dar-lhes tiros nos fundilhos? Ainda se sente um caçador de bundas? - Caçador de bundas? Então é assim que me chamam os ímpios? Não caço qualquer bunda - esclareceu o paciente, um tanto surpreso com a ousadia do médico - , caço apenas as bundas perversas, as luciferinas, aquelas que têm o dom das más palavras. Faço-as calar com um único tiro de sal bento, bem certeiro, ali no ponto exato onde devia existir tão somente o olho cego, mas existe a boca maldita, a boca desdentada a serviço de Satanás. Posso consumir até nove semanas inteiras no encalço de uma dessas bundas perversas, herr doctor, mas Deus sabe que sempre alcanço a vitória, sempre as deixo definitivamente emudecidas. É maravilhoso saber que não mais dirão os horrores que propalavam aos quatro ventos, não mais darão voz às palavras chulas do Cão, palavras que viram a cabeça das pessoas! - Então as bundas perversas falam, Herr Mitterhorffer? Falam como se tivessem boca, língua e cordas vocais? - Sim, é o que fazem. Falam barbaridades. Não poderia o senhor imaginar os absurdos que dizem, assim despudoradamente, entre aquelas bochechas pálidas. E o hálito? O hálito fétido que lhes acompanha as palavras vem diretamente das furnas dos Infernos. É terrível, doutor. O que dizem é terrível! - Herr Mitterhorffer, não quero parecer desrespeitoso, atrevido, mas tenho um interesse científico e até mesmo teológico, digamos assim, em conhecer esses horrores ditos pelas bundas diabólicas. O que dizem elas? Devem ser coisas estarrecedoras, é fato, ou o senhor não se teria transformado nesse caçador tão obstinado. O que dizem as bundas perversas, afinal? - Peça-me qualquer outra coisa, menos que eu repita aquelas palavras, herr doctor. Nem queira atrair tamanha maldição para a sua vida. Se não as escuta, quis o Criador poupá-lo desse flagelo. Dê-se por satisfeito! Eu, pobre desgraçado que sou, escuto tudo o que elas dizem, quando se vão pelos caminhos, pelas ruas, remexendo as faces gordas, balançando-se, soprando murmúrios indecentes, fazendo convites, chamando-me para a trilha da perdição da alma. - Que vida de sofrimentos, Herr Mitterhorffer! Nenhum outro caçador padece de tais torturas mentais, tendo em vista que as caças, de modo geral, não emitem sons inteligíveis. Caçar bundas deve ser um martírio! - Minha vida é um martírio sem fim, herr doctor. Principalmente agora que já começo a escutar outras partes falantes, outras partes do corpo humano, as quais também se comprazem em dar voz aos discursos de Satanás. Só pode ser o Final dos Tempos, herr doctor! Não bastasse o imenso trabalho de caçar bundas perversas, agora me caberá a missão de silenciar aquelas outras boquinhas desdentadas. Aquelas bem pequeninas, compreendeu? - e Otto Mitterhorffer piscou o olho para o médico. - Boquinhas, Herr Mitterhorffer? Poderia ser um pouco mais claro? - mas, antes mesmo de ouvir a resposta do caçador, num gesto inconsciente, de natureza defensiva, o Dr Schmols cruzou as pernas. Cruzou as pernas e retesou as coxas. _______________ Todos os Direitos relativos a este conto pertencem ao autor, conforme a Lei D. A. e registro na Biblioteca Nacional São Paulo,
Quarta-feira, Fevereiro 11, 2004
Morte e Vida Celestina, o novo romance de Alexandre Soares Silva, já pode ser comprado antes mesmo do lançamento oficial, que acontecerá no dia 04 de março, aqui em São Paulo. Clique na imagem ao lado e faça o seu pedido agora. Por que esperar até março, meu Deus? Parabéns ao sempre talentoso Alexandre e também aos editores da Candide! . |