Tem novidade? Tem, sim, senhor! ![]() OH! OH! OH! Strogonoff Petista Deitei a cabeça no travesseiro torcendo para ter um sonho deleitoso, puro, mimosinho, preferencialmente uma viagem no Orient Express. Pensei no trem partindo da Estação Santa Lucia, lá em Veneza, com destino a Viena e, posteriormente, Paris. Entretanto, deu cocô: acabei lembrando do Zé Dirceu, do Sarney, do presidente Lula fazendo seus medonhentos discursos de improviso, o que me fez sonhar com um absurdo strogonoff de carne de macaco, preparado por uma misteriosa quituteira do Mal chamada Mãe Martinha de Malaketo. Sei que foi castigo! * * * QUE COISA!!! Eu escrevo minhas bobagens aqui no recadário e há filas de pessoas a competir para ver quem veste primeiro as carapuças. Que coisa, não? "Ele falou de mim, o maldito Dennis!" / "Foi de mim que ele falou, aquele Dennis cretino e neurótico!" Ora, ora, não procurem pintos em ovos! Digo pêlos em ovos! Pêlos!!! Se as carapuças todas estão servindo tão confortavelmente, talvez signifique algo, não é mesmo? * * * Momento Psicológico Quando o esperto vovô Jung descreveu aqueles maravilhosos arquétipos, tais como o Infante Herói e o Sábio Ancião, esqueceu de mencionar a Caçadora de Pintinhos. Ela é um arquétipo importantíssimo. Importantíssimo! Eu acho que a Caçadora de Pintinhos tem o dom da ubiqüidade - igual a Santo Antonio. Duvidam? Basta passear por aí. * * * Voltando! * * * ![]()
![]() O Filho do Hipnotizador e outras histórias de estranhas pessoas - Dennis D. 208 páginas Contos Diversos Editora Resson Clique: Rede Saraiva Submarino Livraria Cultura
"Le Cage Aux Folles" Para a nobre senhora Baronesa de Cinemark
"Over the Rainbow" Harold Arlen
1 - You Neve Know 2 - Unforgettable 3 - Love is a Many Sprendored Thing 1 - Cole Porter 2 - Irving Gordon 3 - Alfred Newman
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São Paulo,
Sexta-feira, Janeiro 30, 2004
(Ambientado em 1914) ![]() Tio Dorian, que na verdade tinha outro nome, adorava fazer rir a Mandarina, criada caduca de minha bisavó, e, para tanto, sempre lhe dizia as mesmas quadrinhas que se iam a alta voz, declamadas em tom de malícia: "A rosa quer-se apanhada / antes de sair o sol, / o cravo ao meio-dia, / pra o seu cheiro ser melhor. / As senhoras da cidade / têm grande opinião; / não sabem como hão de andar, / nem poisar os pés no chão."
"Pára! Pára!" - suplicava a velha desdentada, no entrecorte das gargalhadas, e referia-se a si mesma como um ente em separado, uma terceira pessoa por quem tivesse especial carinho - "A Mandarina num güenta ! Cuida dela! Cuida dela! Pára! Pára, por amor a Nossa Senhora!" Tio Dorian não parava. E mais quadrinhas lá se iam pelo quarto, as mesma que a velha já ouvira outras centenas de vezes: "Chovam raios de toucinho, / centelhas de queijo mole, / venham quartilhos de vinho, / que este maltês tudo engole." "Pára, malvadinho! Ai, ai, que me falta o ar! Ai, que eu me 'insufoco'!"- berrava a Mandarina, caindo sentada na cama e logo tombando para trás, vestido branco enfunado a revelar dois saiotes-de-baixo feitos de panos mais grosseiros, com barras desfiadinhas. Tio Dorian, mãos na cintura, inclinava o torso para frente. Berrava a última quadra: "Boa herva é o poejo, / que se deita na açorda; / racha-me a cara com beijos, / tem cautela, não me mordas." Com uma seqüência de gritos agudos, a Mandariana punha-se de pé, depois saía a correr, agarrada ao avental, cambaleando as pernas fininhas, duas ou três mechas de cabelos brancos voejantes escapadas do amarrilho da touca ainda mais branca. Já bem ao longe, ouvia-se a velha Mandarina pedir socorro à cozinheira: Luzia! Acuda, Luzia, que estou me "insufocando!" Tio Dorian aprumava-se diante do espelho, puxava para baixo as pontas do colete, descia as escadas correndo e saía de casa ao encontro de suas putas. Mandarina, afogueada, abanava-se e murmurava quase em êxtase: "Ai, se eu já não estivesse noiva, juro que fugia com aquele malvadinho! Nesse momento, geralmente, Tio Dorian virava a esquina. Só no prenúncio do canto do galo é que retornaria a casa. Mandarina, então, já estaria acordada, para lhe abrir a porta. Ninguém mais perceberia a chegada do farrista. ... A rosa quer-se apanhada / antes de sair o sol, / o cravo ao meio-dia, / pra o seu cheiro ser melhor. _______________ Todos os Direitos relativos a este texto pertencem ao autor, conforme a Lei D. A. e registro na Biblioteca Nacional São Paulo,
Terça-feira, Janeiro 27, 2004
(Cena de um sonho / madrugada de 25/01/2004) ![]() "Sabei, sabei que o papa morreu! Morreu, mas não entrou no Paraíso! Não entrou, nem entrará, trá-lá-lá e trá-lá-lá!" - anunciou o anjo gay, figura das mais imponentes, par de asas bois de rose, minissaiote de centurião romano, corpo atlético besuntado com óleos de sândalo e jasmim. O anjo, aliás, tinha a cara do talentoso amigo Noriega (NORIEGA)
Feito o anúncio, ele continuou ali, pairado dois metros acima da torre sineira da capela puquiana. Uma mulherzinha à-toa, que trazia debaixo do sovaco a seborréica biografia de Pagú, ergueu o queixo e replicou: "Isso é o que diz vosmecê, sujeito flamingóide! Nenhum outro papa peregrinou tanto, nenhum outro levou a mensagem da Igreja a tantos povos diferentes. Aposto que vosmecê nem é anjo católico. Mostre a carteirinha, mostre algum documento, blá, blá, blá, blá, blá!" O anjo gay treplicou: "Digo porque sei, asneirenta semióloga! Vosmecê acha então que Deus se impressiona com turnês ou com mass media? Para Deus, ignorantona, um papa vale tanto quanto aquele pipoqueiro lá na esquina da Rua Bartira, o Ivanildo. Qual! O negócio todo é simples: não entra no Paraíso quem semeia intolerâncias e ainda, por conveniência e hipocrisia, esconde crimes terríveis debaixo do tapete. Não entra e pronto, entendeu? Discriminou, fica fora do Céu! Sinto muito, mas as coisas são assim, ó rapariga da foice enferrujada. Quer ver minha carteirinha? Ora, vá fazer sua terapia reichiana e não se intrometa em assuntos teológicos." O anjo gay subiu mais dois metros e retomou a anunciação: "Sabei, sabei que o papa morreu! Morreu, mas não entrou no Paraíso! Não entrou, nem entrará, trá-lá-lá e trá-lá-lá!" São Paulo,
Segunda-feira, Janeiro 19, 2004
(conto ambientado em 1919) ![]() Os olhos inferiores eram cinzentos e míopes. Eram banais, sincronizados, quase chorosos. Percebiam as cenas da vida e lançavam olhares através de lentes corretivas fabricadas em Genebra. O olho superior, que há oito meses desabrochara no meio da testa de Alice, era azul, perfeito, inquieto e com vida independente.
Enquanto dormiam os olhos cinzentos de Alice, sob as pálpebras franjadas de cílios fulvos, o olho azul continuava alerta, a mover-se na escuridão do quarto, capturando visões que eram e não eram deste mundo. O olho azul não tinha pálpebra que o cobrisse, por isso, de dez em dez minutos, vertia uma espécie de lágrima turva. Esse líquido, que uma vez Alice, apenas por curiosidade, levara até a língua, tinha um sabor repulsivo. Seria um gosto de sangue ou de uvas estragadas? Ela não quis tornar a provar daquela lágrima, nem que fosse só para tirar a dúvida. Teodoro, o marido, recolhia-se ao leito depois da meia-noite. O olho azul acompanhava todos os seus movimentos; quando descalçava as botinas, ao despir o terno, ao meter-se nos pijamas de algodão. E não via apenas o homem, mas via o seu esqueleto feito de ossos que emitiam uma luz suave, ora verde esmeralda, ora de um amarelo fosco, sem graça; via também a cobra que morava dentro dos seus intestinos, a cobra de duas cabeças, ali adormecida desde outubro, mas que um dia qualquer haveria de acordar. Que horror, quando acordasse! Alice já não saberia viver sem as visões que lhe oferecia o olho azul, fossem elas sublimes ou terríveis. Focalizando a porta do salão de jantar, o olho superior enxergava o futuro. No futuro, existiriam coisas inimagináveis: livros redondos, como pequenas jóias de ouro e de prata; caixas teatrais dinâmicas; novos insetos e animais mamíferos recriados pela ciência da combinação improvável; relógios sonoros, sem ponteiros ou números; espíritos rastejantes, cuja única função seria a de limpar a sujeira e a podridão invisíveis, os dejetos de sentimentos e de pensamentos humanos; anjos dormindo de cabeça para baixo, em varais quilométricos, ao longo dos caminhos; cemitérios e mais cemitérios de ilusões, onde qualquer um, rico ou pobre, poderia sepultar decentemente os seus sonhos mais caros, os sonhos mortos, as decepções e suas memórias em cinzas. O olho azul podia ver sete mundos dentro da Terra e sete mundos além da Terra. No miolo de uma rosa, por exemplo, podia enxergar Ariel, Caliban e Próspero. Nos degraus de uma velha escada, eram-lhe perfeitamente visíveis todas as marcas deixadas pelos passos dos muitos que a galgaram e que por ela desceram. O olho azul de Alice via tudo, o possível e o impossível. ... - Como vai a nossa querida Alice May, Teodoro? Há tempos que não a vejo. - Muito bem, mamãe. Apenas um pouco mais calada. Alice é dada a essas fases que vêm e vão. - Ela perdeu aquela irritante mania de ficar com o dedo na testa a desenhar círculos imaginários? Aquilo mexia com meus nervos, Teodoro. - Não, mamãe, ela continua fazendo aquilo, mas é uma mania como outra qualquer. Assim como apareceu, há de sumir. - E a sua prisão de ventre, meu filho? Já consultou o Dr. Heleno? Tentou as tais pílulas cor-de-rosa? _______________ Todos os Direitos relativos a este texto pertencem ao autor, conforme a Lei D. A. e registro na Biblioteca Nacional São Paulo,
Segunda-feira, Janeiro 12, 2004
![]() Começarei olhando para a parede que existe, onde a janela que não existe revela os primeiros quilômetros do meu caminho de Méséglise.
Poucas pessoas conseguem localizar essas janelas inexistentes, que, a despeito de não se revelarem com facilidade, ali estão, geralmente nas paredes internas da casa, em lugares os quais uma pessoa sensata juraria ser impossível haver qualquer abertura que desse para o espaço exterior. Assim se apresenta o enigma: as janelas inexistem, é fato, mas podem ser vistas e atravessadas, desde que nos dediquemos a desenvolver determinadas habilidades do espírito. Uma das chaves do enigma, já adianto aqui, depende da correta utilização dos livros. Coloco a cabeça para fora da janela inexistente, a fim de aspirar os perfumes que me chegam lá dos jardins de Charles Swann. Apertando um pouco os olhos, consigo enxergar, ainda mais ao longe, o menino que brinca entre as flores dos pilriteiros. Ele salta, gira, agacha-se e levanta-se, indiferente às redes de espinhos escuros que se ocultam por detrás das inflorescências - os mesmos espinhos escuros e duros dos pilriteiros de Jerusalém, aqueles que, em ramos trançados, um dia serviram à dolorosa coroação do Cristo. Espinhos escuros e duros à sombra dos cachos de flores brancas, de pétalas arredondas, e de cujo centro emergem os estames encimados por almofadinhas de pólen. Se o menino me pudesse ouvir, eu gritaria daqui desta janela: "Fica aí onde estás! Aproveita mais um pouco desse teu tempo que se há de perder muito depressa! Tolice! A existência desse menino a brincar entre os pilriteiros é perpétua. Ah! como é importante ele estar ali. Ao tempo em que envelhecemos - nós, os homens - e partimos todos a buscar os pedacinhos da nossa própria alma no regresso às memórias da infância e da mocidade, tudo o que nos importa, tudo o que nos consola, creiam-me, são alguns poucos cheiros, uma pedra, uma flor, um retalho de céu, uma velha estampa de cortina, coisas que se parecem com outras tantas que ficaram para trás - coisas que nos dão a ilusão de um sentido para cada adeus, talvez a ilusão de que ainda é possível abrir uma porta, uma janela, um buraco na parede e reencontrar, atravessando essa passagem, o melhor do que fomos, ou o melhor do que poderíamos ter sido. A luz do meu caminho de Méséglise já se apaga um pouco mais. Sempre anoitece quando menos se espera. Um descuido e o presente já é passado. Eu entro e saio há tantos anos das páginas deste livro de Swann, que até posso ouvir o tec tec do facão de Françoise, na cozinha, aparando as pontas dos aspargos; escuto os suspiros de tia Léonie, decepcionada com o atraso de Eulalie, a novidadeira; acompanho os passos do menino que, enfim, já volta para casa, trazendo alguns rabiscos de pólen nos cabelos negros. Seis da tarde, em São Paulo. Em Combray, neste exato momento, todos os relógios pararam de funcionar, simplesmente porque eu fechei o livro de Swann - e assim a janela inexistente também desapareceu da parede que existe, mas não desapareceu para sempre, senão eu nem saberia como viver. _______________ Todos os Direitos relativos a este texto pertencem ao autor, conforme a Lei D. A. e registro na Biblioteca Nacional São Paulo,
Quarta-feira, Janeiro 07, 2004
(Conto ambientado em 1955) ![]() Moma, a irmã mais velha do Sr. Fanfulla, passou trinta e oito anos enfiada num quartinho abafado. Só falava em doenças de difícil diagnóstico, na incompetência dos médicos e na certeza de sua morte iminente. Esta, ela dizia, haveria de chegar bem antes do próximo Natal, ou da próxima Páscoa ou, traiçoeiramente, em meados de agosto, o mês das ventanias.
Num dia claro de abril, para espanto de toda a famíla, Moma levantou-se do leito, tomou um bom banho de chuveiro e vestiu saia e blusa emprestadas pela irmã Elvirinha. Pediu que a levassem ao Centro, pois queria ver o povo caminhando apressado nas ruas, queira conhecer os prédios mais altos, os viadutos, as modernidades, tudo, tudo o mais. Talvez até fizesse algumas comprinhas; um terço de cristal tcheco, um missal com capa branca, esses artigos religiosos finos que estão à venda na Casa Bove. O Sr. Fanfulla meteu a mão no bolso e deu o dinheiro. Saíram, Moma e Elvirinha. Tomaram o bonde na esquina. Ainda fizeram alguns acenos aos vizinhos perplexos. Lá pelas quatro da tarde, pés ligeriamente doloridos, resolveram tomar um chá na Leiteria Campo Belo, perto da Praça do Patriarca. Como estavam no Anhangabaú, cortaram caminho pela Galeria Prestes Maia. "O que faz aquele povaréu espremido ali, Elvirinha?" "Acho que é uma dessas exposições científicas itinerantes, Moma. Sim, lá está: 'DOENÇAS, ANOMALIAS E DISFUNÇÕES RARAS - SAÚDE, O MAIOR BEM DA HUMANIDADE'. Vamos seguindo, que é tudo besteirada!" "Eu quero ver, Elvirinha. O ingresso é baratinho. Compre dois, eu peço. Faça minha vontade, mana." A primeira saleta era dedicada às enfermidades venéreas e chamava-se "O PREÇO DA LIBERTINAGEM". Havia esculturas de cera, tamanho natural, mais do que realistas, a representar dezenas de genitálias masculinas. Não faltavam sequer os pêlos pubianos implantados, negros, fulvos, sempre fartos, a completar os modelos em exposição. Moma ficou parada diante do primeiro modelo, olhos e boca abertos. Não fez comentário algum, apenas pediu para sair. As duas irmãs caminharam em silêncio até a leiteria. Tomaram assento numa mesa de canto, toalha muita alva, vasinho de porcelana com três rosas amarelas de cetim. Um violinista, ao fundo, tocava a Valsa dos Patinadores, de Émile Waudteufel. "Vamos pedir chá completo ou você prefere uma chocolatada com biscoitos sortidos, Moma?" Moma já não via ou ouvia coisa alguma. Acabara de deixar o mundo, muito tesa, sentada naquela cadeira de palhinha estilo austríaco. Faltavam dois dias para a Páscoa. São Paulo,
Quinta-feira, Janeiro 01, 2004
A data, a data... Chegou o janvier déjà vu molhado de chuva.
Existe uma nova polícia do pensamento, que não fala em crime-idéia, mas em doença-idéia; não fala em ideocriminosos, mas em homens fracos das duas cabeças. Por isso e mais aquilo, George Orwell precisaria ser lido novamente, sem preconceitos, sem pressa, sem miasmas de universidade. Fico a imaginar alguns de seus pesadelos e alumbramentos divulgados em panfletos cheios de graciosas imperfeições, impressos naquelas tipografias do interior, com ares retrô 1950 - letras muito negras sobre papeluchos amarelos, ou verdes, ou azuis presepianos estreladalvianos, ou cor-de-rosa como ovos de boteco. Brancos, nunca. Pilhas de idéias orwellanas poderiam ser oferecidas em farmácias, padarias, supermercados (junto aos displays de camisinhas), nas geladeiras abarrotadas de congelados com gosto de papelão salgado, e onde mais circulasse o povo mediano e sofrido, porém ainda sem as tatoos numéricas. Ed Motta não acredita em Crítica da Arte, não acredita que arte deva ser criticada, ou melhor, que exista algum sentido em criticar arte. Concordo com Ed Motta; as conchinhas do mar também concordam conosco. Há tantos séculos os críticos de arte vêm acumulando vexames, vexames, vexames... Entretanto, qualquer um pode criticar os quadros de Frida Kahlo, pois ela só produziu artesanato brega, cinecartazetes e pseudo-arte-ideológica-de-parquinho-de-diversão-banguela-off-Oz. Frida Kahlo e Olga Benário (por que me lembrei d'Olga?) fazem parte da galeria das mulheres que me causam um enorme aquilo lá (ainda publicarei a galeria dessas criaturas enfadonhas e horrorosas). Novos eruditos chiques, gente dos grandiosos mundos off-lula, já consideram que arte, beijos na boca e penetrações carnais úmidas são intraduzíveis em palavras. Tenta-se, sim, tenta-se traduzir ou transliterar essas coisas, mas fracassa-se (se, se, se, se, se, se... imaginemos o eco a ressoar ad infinitum). Oscar Niemeyer, o famosento escultor arquiteto de exteriores, talvez não consiga sobreviver o tanto quanto baste para edificar um Memorial Lula da Silva. Oh! Talvez ele, o arquiteto de exteriores, tenha trabalhado durante suas madrugadas insones... talvez já tenha rabiscado o projeto... Quase posso ver os traços trêmulos... aquele monumental pentagrama pagão, 200 metros de altura, todo em mármore pernambucano. Se não houver um espelho d'água, os anos 60 finalmente terão morrido para Oscar. Não se iludam; haverá espelho d'água. Por que mencionei o companheiro (deles) Niemeyer? Eu também me pergunto: por quê? Ah... a cartomante de Dona Corrolla, num arroubo profético, declarou ao repórter da TV que um famosento arquiteto poderá morrer em 2004. Déjà vu. Dona Corrolla (uma conhecida minha) resolver consultar essa tal cartomante para-científica bêbada vinda de Frodolândia. Quanta imprudência! Sem perceber, Dona Corrolla afunda-se num pântano de muco negro, de gosma ectoplásmica expectorada dos brônquios do Conde de Rochester. Voltando a George Orwell, a polícia do pensamento cria ilusões quase perfeitas. Sim, é assustador. Estamos em guerra, a guerra é considerada um fim em si mesma, é a redistribuição de produtos, reciclagem de corpos, de bens e de serviços, dança de Shiva, os abomináveis desejando exterminar os inefáveis. A inveja mordisca, mordisca, lambe, chupa, mas não sente o gosto de nada. Estamos em janvier. Nós, os homens, continuamos sendo invejados, apenas porque sorrimos e gememos diante do leite derramado. Não precisamos de manuais, não dependemos da generosidade das conjugações planetárias. Tudo flui... assim. Somos facinhos. A polícia do pensamento é má. Ela pretende erradicar o orgasmo... onde que ele exista, claro, não onde ele seja apenas uma lembrança ou uma esperança. A polícia do pensamento é má e feia. |